Sobrevivente passou os dias seguintes procurando os corpos dos colegas na Mina Santana. Mais de quatro décadas depois, ainda sonha com aquele dia e, às vezes, escuta gritos.
Foto: Arquivo Pessoal
Por Kelley Alves
Às 3h da madrugada de 10 de setembro de 1984, Sérgio Luiz Maccari levantou para trabalhar. Tinha 24 anos, era noivo e trabalhava havia quase três anos na mineração. Às 4h, pegou o ônibus em Urussanga em direção à Mina Plano Inclinado 2, na comunidade de Santana.
Era uma segunda-feira aparentemente normal. No ônibus, o clima era até de alegria. Era dia de pagamento.
“Todo mundo estava contente porque, naquela época, o pagamento saía sempre no dia 10”, relembra, em entrevista ai Sul In Foco.
Pouco depois das 5h, tudo mudou. Uma explosão matou 31 trabalhadores e transformou a Mina Santana no cenário da maior tragédia da mineração subterrânea do Brasil.
Sérgio sobreviveu por uma diferença de poucos minutos.
Nesta quinta-feira (10), a tragédia completa 42 anos. Pela primeira vez, a data será marcada também como Luto Oficial em Urussanga, instituído pela Lei Municipal nº 3.221/2025 em memória dos 31 mineiros.
Para Sérgio, porém, aquele dia nunca ficou realmente no passado.
Cinco minutos que mudaram tudo
Sérgio trabalhava na parte elétrica da mina. Naquela manhã, recebeu a informação de que havia ocorrido uma falta de energia no domingo. Já no subsolo, passou as primeiras orientações aos eletricistas e seguiu até a apontadoria para registrar o ponto e solicitar materiais.
Depois, iria para o Painel 6 com o eletricista Paulo Rogério Alves.
Não deu tempo.
“Em questão de cinco, sete minutos, ocorreu um deslocamento grande de ar. A energia faltou e a gente ficou no escuro.”
A força foi tamanha que Sérgio conta ter sido arremessado. No primeiro momento, os trabalhadores imaginaram que tivesse ocorrido um desmoronamento. Com uma lanterna, ele e outros colegas começaram a avançar pelas galerias para descobrir o que havia acontecido.
Quando chegaram próximo ao Painel 6, encontraram muita fumaça e mal conseguiam respirar.
“A gente tentou entrar e aquilo nos asfixiou. Tivemos que sair.”
A explosão havia danificado os canais de ventilação. Antes de avançar, os trabalhadores precisaram reconstruir parte do sistema que levava ar para dentro e retirava o ar contaminado.
Só depois conseguiram chegar mais perto.
Na tarde daquela segunda-feira, encontraram Paulo Rogério Alves. Era justamente o colega com quem Sérgio seguiria para o Painel 6 naquela manhã. O nome dele consta entre os 31 trabalhadores mortos na tragédia.
“De manhã, a gente tinha chegado a uns 20 metros dele, mas não dava para ver. Quando conseguimos reparar a ventilação e avançar, encontramos ele caído.”
As buscas seguiram pelos dias seguintes. Em um dos pontos da mina, 14 trabalhadores foram encontrados juntos, próximos a um telefone.
“Eles deviam ter sentado, porque antes sempre tomavam um cafezinho antes de começar a trabalhar.”
O último corpo foi localizado na manhã de quinta-feira. Sérgio havia escapado da explosão, mas passou os dias seguintes voltando ao subsolo para procurar e retirar os homens com quem convivia diariamente.

“Todos eram amigos”
Quando perguntado sobre quem perdeu naquele dia, Sérgio não escolhe nomes.
“Todos eram amigos.”
Ele explica que trabalhar debaixo da terra criava uma relação diferente. No subsolo, um dependia do outro.
“Você conhecia todo mundo por apelido, por brincadeira. Um ajudava o outro.”
Eram trabalhadores da própria região. Muitos moravam em Santana e em comunidades próximas. A amizade construída dentro da mina continuava do lado de fora, entre famílias que também se conheciam.
Por isso, nos dias seguintes à explosão, Sérgio não estava procurando desconhecidos.
Estava procurando os próprios amigos.

Tragédia dava sinais
O historiador Bruno Mandelli passou anos pesquisando a explosão. Doutor em História, ele é autor de A Explosão da Mina Santana: Uma tragédia anunciada, obra construída a partir de jornais da época, processos judiciais, documentos e entrevistas com sobreviventes e familiares. A segunda edição do livro foi lançada em 2025.
Para Mandelli, o que aconteceu naquela manhã não pode ser entendido sem olhar para o que já ocorria antes.
Segundo o historiador, a Delegacia Regional do Trabalho havia notificado a Companhia Carbonífera Urussanga (CCU) por irregularidades. Uma delas era o armazenamento de dinamite no subsolo, embora a legislação determinasse que os explosivos fossem mantidos fora da mina.
Mandelli explica que também houve acúmulo de gás metano porque o sistema responsável pela exaustão não funcionou. Uma fonte de ignição teria provocado a explosão, que atingiu as dinamites armazenadas no local e aumentou a destruição.
“Essa detonação das dinamites causou mais dano, uma explosão maior do que só o gás metano.”
Havia outro sinal grave. De acordo com a pesquisa do historiador, três trabalhadores já haviam morrido naquela mina somente em 1984, antes daquele 10 de setembro.
“Era questão de tempo para acontecer algo mais grave.”
É por isso que Mandelli chama o episódio de uma “tragédia anunciada”.
O antes e o depois
Sérgio também divide a história da mineração entre o que existia antes e o que veio depois da explosão.
“A gente trabalhava com segurança quase zero. A segurança era o último plano.”
Para ele, a morte dos 31 colegas provocou mudanças que ajudaram a proteger outros trabalhadores.
“Eles são heróis. Não precisavam ter morrido, mas a morte deles causou uma revolução de segurança no subsolo e salvou muitas e muitas vidas.”
Mandelli faz uma ressalva. Segundo o historiador, as normas ficaram mais rígidas, mas a melhoria das condições de trabalho não aconteceu imediatamente.
“A legislação ficou um pouco mais severa, um pouco mais rígida em relação às questões de segurança do trabalho, porém não houve uma melhora significativa nas condições de trabalho dos mineiros.”
Mesmo depois de participar das buscas pelos colegas, Sérgio voltou à Mina Santana. Continuou trabalhando no local até o início de 1985. A preocupação da família com os riscos da profissão pesou e ele decidiu abandonar a mineração.
Saiu da mina. As lembranças foram junto.

42 anos depois, ainda escuta os gritos
O tempo mudou a forma como Sérgio convive com aquela manhã.
“À medida que a gente vai envelhecendo, passa a ser um pouco mais sentimental. Quando essa data se aproxima, é como se passasse um filme na cabeça da gente. Tudo que se viu, tudo que se sentiu.”
Mais de quatro décadas depois, ele ainda sonha com o que aconteceu. Em alguns desses sonhos, escuta gritos. Também não consegue usar despertador porque acorda assustado com o som repentino.
Em julho de 2025, Sérgio voltou às proximidades do local da antiga mina. Já havia feito isso antes. Em 2016, ao retornar ao lugar, então tomado pelo mato, contou que a visita fazia as lembranças voltarem.
Hoje, algumas delas são difíceis demais para colocar em palavras. Ao falar sobre a tragédia, Sérgio prefere não aprofundar determinados momentos.
Foram dias entrando novamente naquele subsolo, no escuro, procurando os companheiros.
E isso ficou.
“Eles não podem ser esquecidos”

É quando fala das novas gerações que Sérgio se emociona.
Ele quer que quem nasceu depois entenda o que significou o trabalho daqueles homens e de tantos outros mineiros. Uma atividade pesada, com pouca segurança e que também deixou trabalhadores doentes ao longo dos anos.
Para Sérgio, o desenvolvimento da região carbonífera também carrega o esforço e o sacrifício dessas pessoas.
“Se hoje nós temos Criciúma, Urussanga, Treviso e Lauro Müller com um pouco mais de conforto e progresso, é por causa da mineração desses mineiros.”
E completa:
“Para a geração ter o que tem hoje, isso custou muito suor e muito sacrifício desse pessoal.”
Mandelli resume a importância de manter essa história viva de outra maneira.
“Precisa ser lembrado que a gente está lidando com vidas, com seres humanos.”
Nesta quinta-feira, 42 anos se passaram desde aquela manhã.
Para Sérgio, não.
Aos 66 anos, ele ainda sonha com a mina. Às vezes, ainda escuta os gritos.
E continua repetindo o que gostaria que as novas gerações entendessem sobre os 31 companheiros que não voltaram para casa:
“Eles não podem ser esquecidos.”
