Ela estava prestes a mudar de casa com os três filhos. A outra, havia começado um novo relacionamento. Uma jovem mãe cuidava de um bebê de quatro meses. A mais nova tinha apenas 21 anos. Quatro histórias diferentes, interrompidas pelo feminicídio.

Por Kelley Alves
Uma tinha 21 anos e dividia um apartamento com o namorado. Outra, aos 39, já havia decidido terminar o relacionamento e preparava a mudança com os três filhos. Uma jovem mãe, de 29, deixou uma menina de sete anos e um bebê de apenas quatro meses. A mais velha tinha 68 anos, estava separada e havia começado um novo relacionamento.
São quatro mulheres com histórias e momentos de vida muito diferentes. Há, porém, algo que passou a uni-las da forma mais brutal: todas entraram, em 2026, na estatística dos feminicídios de Criciúma.
Até agora, a cidade soma quatro casos. No sistema policial aparecem ainda cinco ocorrências inicialmente registradas como tentativas de feminicídio. Em todo o ano passado, foram seis feminicídios e dez registros iniciais de tentativa.
Mas os números, sozinhos, escondem uma parte importante dessa história.
Nenhuma das quatro mulheres mortas neste ano tinha medida protetiva de urgência. Nenhuma estava inserida na rede de proteção. E, segundo levantamento apresentado pelo Ministério Público, apenas uma havia relatado a terceiros um histórico de violência.
Isso não significa, porém, que nos demais casos a violência necessariamente não existisse.
“A ausência de boletim de ocorrência anterior não significa que não tenha existido violência”, alerta a delegada Ana Elisa Vargas de Souza, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) de Criciúma.
Reprodução: Sul In Foco
Aos 21 anos, uma relação que parecia tranquila para a família
A vítima mais jovem tinha 21 anos. Morava com o namorado, de 24, e, para quem acompanhava a rotina dos dois, não havia sinais claros de que aquela relação terminaria em morte.
Segundo as informações reunidas pelo Ministério Público, os dois trabalhavam e aparentavam levar uma vida comum e estável. Não havia medida protetiva de urgência envolvendo o casal.
A relação também teria começado em um contexto de cuidado. Antes de conhecê-la, o namorado já havia tentado tirar a própria vida. Segundo familiares, a jovem procurou ajudá-lo e oferecer apoio emocional.
O casal chegou a morar com a mãe dele e, depois, passou um período na casa da mãe dela.
Em junho, o corpo da jovem foi encontrado no apartamento onde os dois viviam, em Criciúma. Ela estava com uma corda de roupão no pescoço. O namorado apresentou inicialmente a versão de que os dois teriam combinado de tirar a própria vida e que apenas ele teria sobrevivido.
A investigação seguiu por outro caminho. Segundo o Ministério Público, ele teria asfixiado a companheira e alterado a cena para tentar fazer a morte parecer um suicídio. O homem foi preso e passou a responder pelo crime. Fontes públicas também registram que ele foi localizado posteriormente em Cocal do Sul.
Há um detalhe doloroso nessa história.
A mãe da jovem já era acompanhada pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência e Apoio às Vítimas (NEAVIT) em razão da própria separação, marcada por episódios de violência doméstica. No caso dela, havia boletim de ocorrência e medida protetiva.
A filha, porém, não havia procurado a rede antes de morrer.
Ela havia decidido ir embora
A segunda vítima tinha 39 anos e três filhos. Cerca de uma semana antes de ser morta, havia tomado uma decisão: terminar o relacionamento.
Não ficou apenas na intenção. Ela começou a organizar a vida para sair.
Conseguiu um lugar provisório na casa de familiares, preparava a mudança e já havia solicitado a transferência dos filhos para outras escolas. Trabalhava à noite e tentava construir uma nova rotina para ela e para as crianças.
Foi justamente naquela semana que colegas começaram a perceber algo preocupante.
Segundo o Ministério Público, o companheiro passou a demonstrar comportamento de vigilância. Em uma ocasião, depois do trabalho, ela recebeu uma carona. Ele a aguardava próximo de casa, aparentemente para saber quem a acompanhava.
Na manhã em que foi morta, ele voltou a segui-la.
Câmeras registraram a mulher passando por um estabelecimento comercial antes de retornar para casa. Pouco depois, ela foi morta dentro da residência.
Segundo a Polícia Militar, a mulher foi estrangulada com uma toalha. Depois do crime, o homem enviou uma mensagem ao próprio irmão relatando o que havia feito e fugiu com o carro da vítima. O irmão acionou a polícia. O suspeito acabou localizado após se envolver em um acidente durante a fuga.
Os três filhos não estavam em casa naquele momento.
Ela estava a poucos dias de começar outra vida.
Também não havia medida protetiva anterior.
Uma mãe de 29 anos e uma investigação ainda aberta
A terceira mulher tinha 29 anos e era mãe de duas crianças. A filha mais velha tinha sete anos. O caçula, apenas quatro meses.
Ela foi encontrada morta dentro de casa, sobre um sofá, em agosto. Havia sinais de estrangulamento e fios de carregador de celular na região do pescoço. Manchas de sangue também foram encontradas no imóvel.
Quando a polícia chegou, as crianças estavam sob os cuidados de vizinhos e depois foram encaminhadas para familiares com acompanhamento do Conselho Tutelar.
A menina de sete anos chegou a descrever aos policiais características de uma pessoa que poderia ter estado no imóvel naquela madrugada.
Mas, diferentemente dos demais casos, ainda há perguntas importantes sem resposta.
A investigação permanece em andamento e, segundo as informações apresentadas pelo Ministério Público, ainda existe incerteza sobre a motivação do crime.
Também não havia registro anterior de medida protetiva envolvendo a vítima e o suspeito.
É justamente porque a investigação ainda não terminou que este caso exige mais cautela. O que já se sabe é que uma mulher de 29 anos morreu e duas crianças perderam a mãe.
O restante da história ainda está sendo reconstruído pela polícia.
Aos 68 anos, ela havia recomeçado
A quarta vítima tinha 68 anos. Estava separada do ex-marido havia cerca de um ano e, aproximadamente dois meses antes do crime, iniciou um novo relacionamento.
Segundo a investigação, o ex não aceitava o fim.
Na madrugada de 22 de agosto, ele foi até a casa onde a mulher estava com o atual companheiro, de 70 anos. Testemunhas relataram chutes contra a porta pouco antes dos disparos.
O homem entrou no imóvel e atirou contra os dois. Eles morreram.
A Polícia Civil passou a tratar as mortes como feminicídio, no caso da mulher, e homicídio, no caso do companheiro. O ex-marido fugiu e foi encontrado morto horas depois, em uma área de mata. A polícia informou que ele tirou a própria vida.
Ela havia encerrado aquele casamento e seguido a vida.
Mesmo assim, segundo a apuração, o ex-companheiro continuava inconformado com o término.
Mais uma vez, não havia medida protetiva anterior.
Entre os quatro casos analisados pelo Ministério Público, dois têm o rompimento do relacionamento como elemento diretamente ligado ao período anterior ao crime. Em um, a mulher estava preparando a mudança depois de decidir se separar. No outro, a separação já havia ocorrido e ela tinha iniciado uma nova relação.
Nenhuma delas havia chegado à rede de proteção
Para o promotor de Justiça Samuel Dal Farra Naspolini, esse é um dos aspectos mais preocupantes dos quatro casos registrados em Criciúma.
As histórias são diferentes. As idades são diferentes. Os contextos também.
Mas nenhuma das quatro mulheres havia solicitado medida protetiva e nenhuma estava inserida na rede de proteção quando morreu.
“A medida protetiva é um instrumento fundamental. É o mais importante instrumento da Lei Maria da Penha. Ela efetivamente protege muitas mulheres, salva muitas vidas”, afirma o promotor.
Segundo Naspolini, em dois dos casos havia indicativos de relação abusiva, mas as vítimas não chegaram a procurar o sistema de proteção.
Para ele, isso reforça a necessidade de informação e conscientização para que mulheres consigam reconhecer quando estão vivendo uma relação perigosa e saibam que podem pedir ajuda antes que a violência avance.
Reprodução: Sul In Foco
Nem sempre a violência que existia chegou à polícia
A ausência de boletim de ocorrência ou de medida protetiva não permite concluir que uma relação era livre de violência.
É uma diferença importante.
Segundo a delegada Ana Elisa Vargas de Souza, depois de um feminicídio, uma das tarefas da investigação é justamente reconstruir o que aconteceu antes da morte.
São analisados depoimentos de familiares, amigos e testemunhas, mensagens, comunicações, registros policiais anteriores e outros elementos capazes de revelar como era aquela relação.
E é muitas vezes somente depois do crime que episódios anteriores aparecem.
“Em algumas situações, somente após o crime, durante a investigação e a reconstrução da dinâmica da relação, surgem informações sobre episódios anteriores de violência que não haviam sido formalmente comunicados”, explica.
A violência doméstica também não se resume à agressão física. Pode aparecer em ameaças, perseguição, controle, violência psicológica, patrimonial ou em comportamentos que vão se intensificando ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, a delegada faz uma ressalva importante: não existe uma sequência obrigatória antes de um feminicídio. Há casos em que os sinais são percebidos anteriormente e outros em que não há registros ou elementos claros capazes de antecipar o crime.
Quando procurar ajuda
Quando uma mulher procura a Polícia Civil relatando ameaça de morte, perseguição, controle ou agravamento da violência, a análise não considera apenas o episódio daquele dia.
São avaliados o histórico da relação, possíveis agressões anteriores, ameaças de morte, perseguição, controle excessivo, acesso do agressor a armas e outros fatores que possam aumentar o risco.
A mulher pode solicitar uma medida protetiva de urgência. Em situação de flagrante, o agressor pode ser preso. Em casos mais graves, a Polícia Civil também pode pedir outras medidas cautelares, inclusive a prisão preventiva, quando houver os requisitos previstos em lei.
A rede de proteção pode ser acionada e, quando necessário, a mulher e os filhos podem ser encaminhados para um local seguro.
“O mais importante é que a mulher procure ajuda o quanto antes”, reforça Ana Elisa.
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Antes de serem quatro casos, eram quatro vidas
Os dados ajudam a mostrar o tamanho do problema.
Criciúma teve seis feminicídios em 2025. Até agora, são quatro em 2026. Nesta mesma época do ano passado, eram três. Como 2026 ainda está em andamento, a Polícia Civil considera cedo afirmar se haverá aumento ou redução.
Mas há coisas que os números não mostram.
Não mostram uma mulher de 39 anos preparando a mudança e a transferência das escolas dos filhos porque havia decidido começar de novo.
Não mostram duas crianças, uma delas com apenas quatro meses, perdendo a mãe.
Não mostram uma mulher de 68 anos que havia encerrado um casamento e se permitido viver uma nova relação.
Nem mostram tudo o que ainda havia pela frente para uma jovem de apenas 21 anos.
Antes de serem quatro casos, eram quatro mulheres vivendo histórias que ainda não deveriam ter terminado.
Reprodução: Sul In Foco