Saúde

Falta de UTIs, vacinação e variante Ômicron: o segundo ano da pandemia em SC

Estado chega ao segundo ano pandêmico com tendência de afrouxamento das medidas; especialistas, no entanto, alertam para os perigos que novas variantes ainda podem trazer

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Era uma tarde de 12 de março de 2020 quando o então secretário de Estado da Saúde, Helton de Souza Zeferino, anunciou durante uma entrevista coletiva os dois primeiros casos de Covid-19 em Santa Catarina: um homem e uma mulher, ambos residentes de Florianópolis. Dois anos depois, o cenário mudou: são 1.638.500 confirmações e 21.518 mortes no Estado, segundo dados do Painel do Coronavírus do NSC Total da última quarta-feira, dia 9.

— Foi um período muito mais longo do que imaginávamos. Quando identificamos o primeiro caso de transmissão comunitária, achamos que seriam seis ou oito meses de pandemia — pontua o atual secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro.

O cenário, apesar de assustar, poderia ser pior, caso a vacinação não tivesse avançado. Em mais de um ano, 84,11% da população catarinense recebeu, ao menos, uma dose contra a doença, de acordo com dados do Monitor da Vacina do NSC Total. Já 76,45% completaram o esquema primário, que corresponde à segunda dose ou a vacina de dose única.

Com isso, Santa Catarina estuda um novo cenário em relação às medidas nos próximos meses, como a liberação do uso de máscaras e a extinção do decreto que configura a Covid-19 como situação de calamidade pública. Ações que, para especialistas, ainda são precoces e que devem ser tomadas com responsabilidade.

Do cenário caótico à esperança com a vacinação

Em 2021, quando completou o primeiro ano da confirmação dos primeiros casos, Santa Catarina enfrentava o pior momento na pandemia. Foi em março que imagens de UTIs lotadas e relatos de pessoas que perderam parentes na fila de espera por uma vaga em um hospital invadiram o noticiário.

No dia 12 de março do ano passado, o Estado acumulava 38.841 casos ativos de Covid-19 – até aquele momento, eram 724.107 confirmações desde o início da pandemia. Porém, o que preocupava mesmo era a situação nas unidades de saúde. SC chegou a ter mais de 1,2 mil pacientes internados com a doença e 99% dos leitos de UTI ocupados.

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Isso alinhado com uma fila gigantesca de espera por um leito de UTI. O auge foi em 17 de março, quando 457 pacientes aguardavam por uma vaga nos hospitais. Vaga essa que nunca chegou para alguns. Um documento no qual o G1 SC e a NSC TV tiveram acesso, na época, mostrou que ao menos 233 pacientes morreram à espera de um leito de UTI especializado em Covid até 22 de março de 2021 – só naquele mês, foram 194 óbitos.

— Do ponto de vista temporal, é importante observar que os casos agregados no conjunto do Estado apresentaram diversos surtos contaminatórios ao longo de toda a pandemia. Entre os meses de novembro de 2020 e junho de 2021, o Estado vivenciou uma situação dramática diante do elevado número de pessoas contaminadas e do expressivo número de pessoas que vieram a óbito, destacando-se que o mês de março de 2021 foi o mais letal de todos ao longo da pandemia, período em que foram registrados 3.527 óbitos — pontua o professor e coordenador do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense (Necat) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Lauro Mattei.

Porém, com o avanço da vacinação, principalmente entre os idosos e pessoas com comorbidades, o Estado voltou a ter um cenário de queda na quantidade de casos, mortes e hospitalizações. Em agosto, por exemplo, Santa Catarina zerou a fila de espera por um leito de UTI – indicador que até a última quarta-feira, dia 9, continuava sem pacientes. Até esta mesma data, segundo o Monitor da Vacina, 13.592.563 vacinas haviam sido aplicadas em Santa Catarina, entre primeira, segunda ou dose de reforço.

Mesmo assim, os desafios não acabaram. Isto porque, no fim de dezembro, Santa Catarina enfrentou uma nova onda de Covid-19, ainda mais transmissível, que fez com que o número de casos ativos disparasse. Em 29 de janeiro deste ano, o Estado atingiu 80.251 pacientes em tratamento para a doença – maior número desde o início da pandemia. A principal responsável foi a variante Ômicron.

— Diferentemente dos surtos anteriores, no atual o número de pessoas contaminadas é elevado, porém sem um correspondente no número de óbitos. E a explicação para tal situação recai exatamente sobre os efeitos benéficos da vacinação da população — pontua Mattei.

O secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro, também acredita que o avanço da vacinação foi o principal fator para que a nova variante evitasse um cenário mais agravante:

— Tivemos em janeiro (de 2022) mais que o dobro (de casos) do que janeiro do ano passado. Isso mostra que a vacina é a melhor arma contra a pandemia. Outra diferença em relação a março do ano passado é o percentual de vacinados, já que estávamos no início da campanha de vacinação. O que não deixa dúvida da qualidade das vacinas.

Novo cenário prevê liberação de máscaras, apesar das incertezas

Para o infectologista Amaury Mielle, os dois anos de pandemia também trouxeram uma série de aprendizados a respeito do comportamento da Covid-19, principalmente por se tratar de um vírus novo.

— Primeiro, acredito que aprendemos muito sobre o coronavírus e os reais mecanismos de transmissão. A Covid-19 se mostrou uma doença mais inflamatória do que respiratória. O pós-Covid nos apresentou um cenário onde as manifestações persistem mesmo depois do paciente ter alta — salienta.

Atualmente, o cenário da pandemia no Estado apresenta uma queda nos casos ativos. Na quarta-feira (9), eram 9.838 catarinenses ainda em tratamento da doença – uma queda de 80,99% se comparada com a situação de um mês antes.

Isso fez com que Santa Catarina começasse a pensar na flexibilização de algumas regras de combate à pandemia. A primeira anunciada foi a desobrigação do uso de máscaras por crianças no ambiente escolar. Agora, a medida é uma recomendação, ou seja, os pais podem optar se os filhos vão ou não usar o equipamento de proteção.

​> Pico de casos de Covid em SC no início do ano traz dúvidas sobre dispensa de máscaras​

Outras também estão no radar, como a desobrigação do uso de máscaras. Como trouxe a colunista do NSC Total, Dagmara Spautz, o decreto a respeito do assunto deve ser publicado neste sábado, dia 12, mesmo dia em que se completa dois anos de pandemia.

O secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro, também adianta que o decreto que institui o estado de calamidade pública pela Covid-19 não deve ser renovado. O documento expira em 31 de março.

— Santa Catarina é referência no enfrentamento da pandemia e também de observação de cenário. Após dois anos, entendemos que a pessoa já tem a responsabilidade sobre a transmissão, então deixamos de decretar por lei e passamos a recomendar o uso — frisa Ribeiro.

Porém, especialistas acreditam que a medida ainda é precoce, principalmente com as chances do desenvolvimento de novas variantes.

— Ainda não é um momento para medidas de relaxamento, como o não uso de máscaras. É muito precoce e não concordo. Sabemos que o uso das máscaras é a ferramenta mais eficaz de prevenção (da Covid). Não estamos no momento para permitir a flexibilização — diz o infectologista Amaury Mielle.

A mesma posição também é compartilhada pelo coordenador do Necat, Lauro Mattei:

— Esses distintos cenários revelam que os mecanismos de controle da pandemia ainda não podem ser relaxados e descartados, uma vez que a qualquer momento estamos sujeitos aos efeitos de novas variantes. O momento atual é confortável, uma vez que o pico de contágio provocado pela variante Ômicron está passando. Mas nada indica que não poderemos voltar a ter novos surtos por uma razão óbvia: a pandemia ainda não acabou — pondera.

O que esperar da Covid nos próximos meses?

Mesmo com a queda nos casos ativos, o cenário da pandemia nos próximos meses ainda é de incerteza. Uma das dúvidas, inclusive, gira em torno da vacinação da Covid-19 e a adoção – ou não – de uma campanha anual.

— Ainda não tem nenhum país que diga como vai enfrentar a pandemia em 2022. Se, por exemplo, a vacinação vai ser anual, de qual fabricante. Não temos isso hoje. Está se acenando uma quarta dose para alguns grupos de risco, mas ainda é um terreno inexplorado — explica o infectologista Amaury Mielle.

Ele complementa, ainda, que é cedo para imaginar um cenário epidêmico e, por isso, é preciso analisar com cuidado os próximos passos do combate:

— Em novembro estávamos otimistas que ia ser bom. Agora, temos que pensar: estamos saindo (dessa fase de pandemia)? Quanto tempo vamos levar para estabilizar os casos? Por enquanto, é muito precoce antecipar uma fase de epidemia, porque você pode colocar tudo a perder — aponta o infectologista.

Já a Secretaria de Estado da Saúde, acredita que o cenário de queda nos números deve ser definitivo.

— A pandemia é determinada no movimento do vírus. Quando um país estiver livre de casos novos, significa o final da pandemia. A impressão é que estamos em um declínio, com a diminuição dos casos ativos e parece ser definitivo — avalia o secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro.

Com informações do NSCTotal

 

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