Jovem de 18 anos deixou a família após assumir relacionamento com outro rapaz e hoje vive no Rio Grande do Sul.
Foto: Reprodução / TV Globo
A vida de Emanuel Roque mudou aos 17 anos, quando o relacionamento com outro rapaz desencadeou uma ruptura familiar que terminou com a saída do jovem de casa e a intervenção do Conselho Tutelar. Agora, os pais foram condenados pela Justiça de Santa Catarina a pagar R$ 100 mil de indenização ao filho por danos morais, violência e abandono afetivo.
O caso aconteceu em Jaguaruna, no Sul de Santa Catarina. Na época, Emanuel morava com a família, onde vivia desde os quatro anos, e trabalhava em um mercado da cidade. Foi no emprego que conheceu Jonathas, colega de escola que também trabalhava no estabelecimento. Os dois começaram um relacionamento.
Segundo Emanuel, a relação também marcou um momento importante de aceitação pessoal.
“Foi a primeira vez que eu me aceitei”, contou o jovem em reportagem do Fantástico.
De acordo com o relato apresentado no processo, os pais não aceitaram o relacionamento e passaram a impor restrições à rotina do filho. Emanuel teria sido obrigado a deixar o emprego e proibido de frequentar a escola.
A situação, segundo o jovem, também envolveu episódios de ameaças e agressões dentro de casa. Ele relatou que a mãe reagiu com gritos e ofensas ao descobrir o relacionamento, enquanto o pai teria utilizado um alicate para ameaçá-lo e, em outra ocasião, colocado uma arma de fogo em sua cabeça.
“Eu fiquei com medo, eu botei a mão na mão dele, e ele me jogou no chão”, relatou Emanuel.
Além dos episódios dentro de casa, o jovem afirmou que sua vida pessoal passou a ser exposta nas redes sociais. Segundo o relato, o pai teria feito publicações de conteúdo homofóbico e ameaças direcionadas ao namorado.
Em uma das situações relatadas, um cartaz foi deixado no carro utilizado por Jonathas para ir à academia. A mensagem fazia uma ameaça de morte e pedia que ele deixasse a cidade.
Foto: Reprodução / TV Globo
O episódio assustou Emanuel e chegou ao conhecimento de um amigo, que buscou ajuda. O Conselho Tutelar foi acionado e uma equipe foi até a residência da família.
Segundo registros apresentados no caso, os pais admitiram ao órgão que não aceitavam a orientação sexual do filho e afirmaram que, caso ele mantivesse o relacionamento, teria que deixar a casa.
O pai, por outro lado, apresentou uma versão diferente sobre uma fotografia em que aparecia segurando uma arma. Segundo ele, o armamento pertencia a um amigo que já havia morrido e a publicação teria sido feita em tom de brincadeira.
Jovem passou quase um ano em abrigo
Com o agravamento da situação familiar, Emanuel deixou a residência dos pais e foi encaminhado, em agosto de 2025, para um abrigo municipal. Ele permaneceu no local por quase um ano, enquanto recebia acompanhamento e orientação.
Para o jovem, o período foi marcado também pela descoberta de uma rede de apoio que não tinha encontrado anteriormente.
“Foi o lugar que eu fui mais acolhido na minha vida”, afirmou.
Uma das funcionárias da instituição se tornou uma referência para Emanuel, que afirma pretender manter contato com a equipe mesmo depois de deixar o acolhimento.
“São pessoas que quero levar para o resto da vida”, declarou.
Foto: Reprodução / TV Globo
Durante o período no abrigo, o jovem também recebeu apoio psicológico e orientações jurídicas. O caso passou a ser acompanhado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), que posteriormente ingressou com uma ação judicial.
Entre os elementos apresentados no processo estavam registros de publicações feitas nas redes sociais, depoimentos e relatos de testemunhas.
Para o Ministério Público, os acontecimentos ultrapassaram um conflito familiar e representaram violações aos direitos do adolescente. A avaliação apresentada no processo é de que situações desse tipo podem provocar impactos na vida adulta, inclusive nas áreas emocional e financeira.
Condenação e nova vida no Rio Grande do Sul
Na decisão, a Justiça determinou que os pais paguem R$ 100 mil ao filho por danos morais. O valor está sujeito à correção e aos juros definidos na sentença.
A decisão também estabeleceu que os pais não façam publicações relacionadas à vida privada de Emanuel nas redes sociais.
Hoje, aos 18 anos, Emanuel vive no Rio Grande do Sul com o companheiro e trabalha como operador de caixa em um supermercado. A rotina, segundo ele, é puxada, com longos deslocamentos de ônibus e dificuldades financeiras.
As condições fizeram com que o jovem precisasse interromper os estudos temporariamente. A previsão é concluir o ensino médio em 2027.
Apesar das dificuldades, Emanuel afirma que a nova realidade trouxe uma sensação de autonomia que não tinha antes.
“Por menos que eu não tenha a vida financeira boa que eu tinha quando eu estava em casa, eu estou conseguindo conquistar minhas coisas com o meu dinheiro e com o meu suor”, relatou.
Ao falar sobre a vida atual, ele também destaca a possibilidade de viver o relacionamento sem as restrições que marcaram o período em que morava com os pais.
“Hoje eu sou muito mais feliz morando com meu namorado, me sentindo realmente amado, podendo ser quem eu sou”, declarou.
A repercussão da sentença também surpreendeu o jovem. Segundo Emanuel, ele não esperava que a indenização determinada pela Justiça chegasse a esse valor e ainda tenta compreender os desdobramentos jurídicos do processo.
“Eu não sabia que ia ser tanto dinheiro. Quando saí de lá, acabei me desligando, não tenho muito conhecimento desse negócio jurídico e ainda estou um pouco em choque”, afirmou.
Segundo Emanuel, os pais não entraram em contato com ele após a divulgação da decisão. Enquanto o processo ainda pode ter novos desdobramentos na Justiça, o jovem afirma que concentra os esforços na construção da própria vida ao lado do companheiro, longe do ambiente familiar que, segundo seus relatos, foi marcado por conflitos após ele assumir sua orientação sexual.
Foto: Arquivo pessoal