Cidade teve participação política no processo de 1822 e recebeu Dom Pedro I quatro anos depois; desfile desta segunda reúne escolas, forças de segurança e entidades.
Representação imersiva da passagem do Imperador D. Pedro I por Laguna, realizada em novembro de 2025 – Foto: Elvis Palma.
Por Jhuli Spindola
Quando o Brasil celebra o 7 de Setembro, a história da Independência costuma ser lembrada a partir dos grandes acontecimentos que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em Laguna, porém, a data também guarda episódios que aproximam a cidade dos primeiros anos de formação do país independente.
Um deles ocorreu poucas semanas depois do chamado Dia do Fico. Em 9 de janeiro de 1822, o então príncipe regente Dom Pedro anunciou que permaneceria no Brasil, contrariando a determinação das Cortes portuguesas para que retornasse a Portugal. A decisão ficou marcada pela frase atribuída ao príncipe: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”.
Em 3 de fevereiro daquele mesmo ano, a Câmara da Vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna encaminhou um ofício a Dom Pedro para parabenizá-lo pela decisão. O documento também recebeu as assinaturas de outras autoridades locais, como o capitão-mor, representantes do clero, juiz ordinário, sargento-mor e escrivão.
No texto, os representantes de Laguna manifestaram satisfação com a permanência do príncipe no Brasil e declararam votos de “servidão, respeito e obediência” a Dom Pedro. O documento histórico chegou a ser reproduzido pela Gazeta do Rio de Janeiro em agosto de 1822.
Para o historiador Adilcio Cadorin, a manifestação demonstra que Laguna estava politicamente alinhada ao movimento que defendia a autonomia brasileira naquele período.
“A Câmara de Laguna demonstrou em 1822 apoio firme a Dom Pedro, revelando o alinhamento político da vila com o projeto de autonomia brasileira”, afirma.
Dom Pedro I passou por Laguna
Palacete no centro de Laguna, onde o imperador pernoitou em 1826 (Acervo de Sidney Barreiros, cedida por Adílcio Cadorin – Imagem do livro ‘A maluca viagem…).
A relação da cidade com a história imperial não ficou restrita ao documento de 1822. Quatro anos depois, já como primeiro imperador do Brasil, Dom Pedro I esteve em Laguna durante uma viagem ao sul do país.
A viagem foi anunciada pelo imperador em novembro de 1826, quando informou que pretendia conhecer de perto as necessidades das tropas envolvidas na Guerra da Cisplatina. A comitiva deixou o Rio de Janeiro em direção ao Sul e passou por diferentes pontos do litoral catarinense.
De acordo com registros históricos pesquisados por autores como Oswaldo Rodrigues Cabral e Henrique Boiteux, Dom Pedro chegou a Laguna no fim da tarde de 2 de dezembro de 1826, depois de passar por Garopaba, Vila Nova, Imbituba, Itapirubá e outras localidades da região.
Dia do Fico em 9 de janeiro de 1822. Dom Pedro aclamado no Paço Real no Rio de Janeiro pela decisão de ficar no Brasil: Pintura de J. B. Debret.
O imperador permaneceu na cidade durante aquela noite. Na manhã seguinte, 3 de dezembro, assistiu à missa e deixou Laguna antes das 8h, seguindo viagem pela costa em direção ao Rio Grande do Sul.
A passagem foi rápida, mas deixou um registro importante na trajetória da cidade. Segundo Cadorin, a visita ocorreu em um momento em que Laguna já apresentava relevância econômica, comercial e estratégica no litoral catarinense.
“A visita do imperador reforçou a relevância estratégica e cultural da cidade, que já se destacava como polo econômico e portuário de Santa Catarina”, explica o historiador.
Uma Laguna diferente há 200 anos
Tela “A proclamação da Independência” (1844), de François-René Moreaux, dá uma ideia de como teria sido a recepção de Dom Pedro I em Desterro.
No período da passagem de Dom Pedro I, Laguna tinha uma economia ligada principalmente à produção agrícola e às atividades comerciais realizadas pelo porto. Farinha de mandioca, aguardente e outros gêneros circulavam pelas rotas que conectavam a cidade a diferentes pontos do litoral e do Sul do continente.
A atividade portuária também dava ao município importância logística e militar, especialmente em um período marcado por conflitos. A Guerra da Cisplatina, que motivou a viagem do imperador, reforçava esse papel estratégico da região.
A economia daquele período também era sustentada pela exploração da mão de obra escravizada, presente tanto na produção quanto nas atividades comerciais e portuárias.
Para Cadorin, recuperar esses episódios durante as celebrações da Independência ajuda a deslocar o olhar para além dos acontecimentos mais conhecidos nacionalmente.
“Celebrar o 7 de Setembro é, portanto, também valorizar a memória local e integrar Laguna à narrativa nacional da Independência”, destaca.
Desfile reúne comunidade neste 7 de Setembro
Foto: Prefeitura de Laguna
A programação do 7 de Setembro em Laguna também será marcada pelo tradicional Desfile Cívico-Militar, que reunirá representantes das forças de segurança, escolas, entidades sociais, grupos culturais, esportivos e clubes do município.
As atividades começam às 7h45, com o hasteamento das bandeiras. O desfile está previsto para começar às 8h30.
A programação inclui a participação da Marinha do Brasil, Polícia Militar, Colégio Policial Militar, Polícia Militar Ambiental, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Científica e Força de Operações Especiais, além de instituições como a Rede Feminina de Combate ao Câncer, Lions Clube, APAE, Asilo Santa Isabel, grupos de escoteiros, Fundação Irmã Vera, Casa da Artes e Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina – Seccional Laguna.
As escolas e Centros de Educação Infantil também terão espaço na programação. A rede municipal participará com bandeiras, balizas, representantes dos projetos de iniciação ao esporte e a Fanfarra Municipal. Instituições de ensino particulares e estaduais, Udesc, clubes de bicicleta, grupos de motociclistas e outras entidades completam a programação.
A presença de diferentes segmentos da comunidade reforça o caráter coletivo da celebração. Em uma cidade com episódios registrados nos primeiros anos da Independência e uma passagem do próprio imperador, o 7 de Setembro ganha também uma dimensão de memória local.
Mais de dois séculos depois dos acontecimentos de 1822 e da passagem de Dom Pedro I por Laguna, a cidade volta a celebrar a Independência olhando para uma história que também foi construída às margens do seu próprio porto.