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“Mais de 40 almas ficaram na barra”: documentário expõe drama dos molhes do Rio Mampituba, em Passo de Torres

“Projeto Calado” revela como obra impacta a economia local e por que é considerada inacabada e uma das mais perigosas do Brasil.

 

Foto: Vagner Machado

“Mais de 40 almas já ficaram exatamente ali na entrada dos molhes”. A frase do historiador Jaime Luis Silveira Batista resume o impacto humano por trás de uma das principais obras de infraestrutura da história de Passo de Torres. O tema é o centro do documentário Projeto Calado, lançado no dia 28 de fevereiro, que revisita a construção dos molhes do Rio Mampituba, na divisa com Torres, e os reflexos econômicos, sociais e de segurança que atravessam décadas.

Assista ao vídeo, clicando aqui.

Produzido pela Athos Comunicação e realizado pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, o filme parte do conceito técnico de “calado” (a profundidade necessária para que uma embarcação navegue com segurança) para discutir o passado, o presente e as incertezas do futuro da pesca na região.

Ao revisitar a história, ouvir pescadores, lideranças e especialistas, o projeto dá visibilidade para uma discussão que atravessa gerações e traz reflexos na segurança, no desenvolvimento e na identidade local, mostrando que a ampliação dos molhes do Rio Mampituba representa, para Passo de Torres, a possibilidade de progresso e de proteção às vidas que dependem da pesca.

A obra que mudou a barra

Construídos na década de 1970, os molhes tinham como objetivo organizar a entrada e saída de embarcações, especialmente as de pesca. “Seriam para a entrada e saída das embarcações, principalmente as embarcações de pesca. Tanto as menores quanto as de porte maior, que a gente chama de pesca industrial”, explica o historiador.

A iniciativa partiu da Sociedade dos Amigos da Praia de Torres (SAPT), com foco no turismo e em competições de pesca. Ao mesmo tempo, a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca incentivava a expansão da pesca em alto-mar. Em Passo de Torres, muitos pescadores ainda utilizavam embarcações a remo e aguardavam a obra como oportunidade de avanço.

Desenvolvimento e estagnação

O impacto socioeconômico foi imediato. “Eu acho que foi uma das melhores coisas que aconteceram para os pescadores”, afirma o empresário aposentado João Dalolli de Souza. Ele acrescenta que a obra também contribuiu para reduzir enchentes em Torres.

Mas o documentário aponta que a estrutura não foi concluída como previsto. “É uma obra inacabada”, diz o historiador, ressaltando que o lado de Passo de Torres teria ficado com quase 200 metros a menos do que deveria. Na oralidade local, conta-se que recursos teriam sido redirecionados para a reforma da BR-101 no trecho entre Torres e Osório, após pressão de veranistas da Grande Porto Alegre.

Desde então, a ampliação dos molhes é pauta recorrente. “Já no começo da década de 1970 aconteceram naufrágios com as baleeiras”, lembra o historiador. Cartas de pescadores e até de esposas de trabalhadores teriam sido enviadas ao Governo Federal pedindo a extensão da obra, reivindicação que, segundo ele, permanece sem resposta.

Uma das mais perigosas do Brasil

Para os pescadores, a questão central é a segurança. Adilson Machado, presidente da Associação dos Pescadores de Passo de Torres, afirma que a necessidade de alongamento está diretamente ligada ao aumento do calado. “Precisava alongar os molhes para aumentar esse calado que fosse o suficiente para nossas embarcações de pesca maior”.

Adriano Delfino Joaquim, presidente da Colônia de Pescadores Z-18, descreve o impacto emocional.

“Sentimos na carne essas dificuldades de entrar e sair. É um estresse constante. Além de enfrentar o tempo em alto-mar, você fica pensando se vai conseguir entrar com segurança”.

A barra é considerada por pescadores como uma das mais perigosas do país. Cristian Peres, que seguiu a profissão do pai, relata a incerteza diária: “Tu sai e, na volta, não sabe se vai voltar com o patrimônio inteiro”.

Foto: Projeto Calado / Reprodução

Impacto direto na economia local

O problema não é apenas de segurança, mas também econômico. “A maioria das nossas embarcações de grande porte não conseguem trabalhar aqui”, afirma Adilson. Segundo ele, cerca de 15 barcos operam hoje no Rio Grande do Sul, o que representa aproximadamente R$ 1 milhão que deixa de circular no município. “É o mercado, é a padaria, é a farmácia, é o gelo, é o combustível”.

Santos João da Silva Júnior, empresário da pesca, confirma a dificuldade. “Os barcos novos, há mais de um ano, não conseguem entrar aqui, só em Laguna e no Rio Grande do Sul”. O secretário municipal de Pesca, Osmar Ramos, afirma que o município busca solução junto ao Governo Federal.

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“Já tivemos em Brasília, com o ministro da Pesca, apresentamos os fatos. Isso já vem se estendendo há muitos anos”. Ele destaca que são 50 barcos e por volta de 400 famílias que dependem diretamente da atividade. “É o sustento de Passo de Torres.”

“Sem prolongamento dos molhes, não há pesca segura”

O documentário também registra manifestações da categoria, com faixas que pedem a ampliação da estrutura e denunciam o que classificam como descaso do poder público. Para Adriano, o cenário é claro:

 “Enquanto não houver o alongamento dos molhes, o pescador não vai ter descanso nunca”.

Assista ao documentário e confira as entrevistas na íntegra:

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