Saúde

Tubarão realiza primeira cirurgia robótica pediátrica de SC

João Lucas, de 3 anos, passou pelo procedimento no Hospital Nossa Senhora da Conceição e recebeu alta um dia após a operação.

Imagem: Arquivo pessoal / Talita Ribeiro

O Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Tubarão, foi palco de um marco para a medicina catarinense. Na segunda-feira (24), uma criança de 3 anos foi submetida à primeira cirurgia robótica pediátrica realizada em Santa Catarina. O procedimento foi feito pelo Instituto Maria Schmitt (IMAS) e teve como paciente João Lucas Machado Constantino.

A criança foi diagnosticada ainda durante a gestação com alterações nos rins. Segundo a mãe, Talita Ribeiro Machado Constantino, um ultrassom realizado quando ela estava com oito semanas de gravidez já havia apontado uma dilatação renal. O quadro foi confirmado posteriormente no exame morfológico.

Após o nascimento, João Lucas passou a ser acompanhado pela nefrologista pediátrica Elide Fragoso Clasen. Os exames identificaram hidronefrose bilateral associada à estenose da junção ureteropélvica (JUP), condição que dificulta a passagem adequada da urina do rim para o ureter.

Durante o acompanhamento, a expectativa era de que a dilatação pudesse estabilizar com o crescimento. No entanto, a evolução do quadro indicou a necessidade de intervenção cirúrgica. A família aguardava pelo procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) havia cerca de dois anos.

“Durante esse período, eu nunca me senti preparada para ver meu filho passar por uma cirurgia. Na minha cabeça, seria algo muito invasivo e doloroso. Foram dois anos convivendo com essa preocupação”, relata Talita.

A possibilidade de realizar o procedimento com auxílio de tecnologia robótica mudou a percepção da família sobre a cirurgia. O caso foi encaminhado para avaliação cirúrgica e passou a ser conduzido pelo cirurgião robótico e pediátrico Rafael Deyl, diretor e coordenador da Cirurgia Robótica da CIPE. A cirurgiã pediátrica Carolina Petersen Moojen também acompanhou o procedimento.

João Lucas foi submetido a uma pieloplastia robótica no rim esquerdo. A técnica é utilizada para corrigir a obstrução localizada na junção entre o rim e o ureter.

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De acordo com Rafael Deyl, a tecnologia permite maior precisão durante a operação e uma abordagem menos invasiva, características que podem contribuir para uma recuperação mais rápida.

“A cirurgia robótica possibilita uma intervenção muito menos invasiva e com maior precisão. Com isso, buscamos reduzir o período de internação, a dor no pós-operatório e a necessidade de medicamentos para controle da dor”, explica o cirurgião.

Família acompanhou cada etapa

Imagem: Arquivo pessoal / Talita Ribeiro

Para Talita e Lucas Constantino, pais de João Lucas, a possibilidade de o filho ser o primeiro paciente pediátrico do estado a passar pelo procedimento trouxe inicialmente dúvidas. Como a tecnologia ainda era novidade para a família, os dois buscaram informações antes da operação.

“O primeiro sentimento foi de dúvida, porque nunca tínhamos ouvido falar de uma cirurgia desse tipo em uma criança. Depois que o médico explicou como funcionava e mostrou o procedimento, ficamos muito mais tranquilos”, conta Lucas.

A preparação também envolveu o próprio João Lucas. Para ajudá-lo a enfrentar o momento, a família utilizou uma referência que ele conhecia bem: o Homem-Aranha. A criança foi para a cirurgia vestida como o personagem.

“Ele sempre foi uma criança muito forte e inteligente. A gente dizia que ele precisava ser corajoso como o Homem-Aranha. Por isso ele foi vestido assim para a cirurgia e depois dizia que tinha sido muito corajoso”, relata Talita.

O pós-operatório surpreendeu os pais pela rapidez da recuperação. João Lucas recebeu alta na terça-feira (25), apenas um dia depois da cirurgia. Segundo a mãe, um dos primeiros sinais que chamou a atenção da família foi a quantidade de urina eliminada pela criança após o procedimento.

“Quando ele urinou pela primeira vez depois da anestesia, ficamos muito emocionados. Antes, o jato de urina era muito pequeno e, naquele momento, vimos que ele estava urinando bastante. Para nós, foi a primeira percepção de que o problema tinha sido resolvido”, afirma.

Poucos dias depois da cirurgia, segundo a família, João já estava brincando, alimentando-se normalmente, ingerindo bastante água e utilizando o banheiro com maior frequência.

Um novo capítulo para João

Imagem: Arquivo pessoal / Talita Ribeiro

A cirurgia encerrou uma espera que acompanhava a família desde os primeiros dias de vida da criança. Para os pais, além do resultado imediato, o procedimento representa a possibilidade de que João Lucas tenha uma rotina mais próxima da de outras crianças, sem a preocupação constante relacionada ao problema renal.

“Hoje não temos mais aquela preocupação de pensar no que pode acontecer. Esperamos que ele possa ter uma vida plena, saudável e normal, como qualquer criança. Para a nossa família, isso representa uma mudança que vai acompanhar toda a vida dele”, afirma Lucas.

A família também destacou o atendimento recebido no Hospital Nossa Senhora da Conceição e o acompanhamento após a cirurgia. Segundo Talita, a equipe do IMAS manteve contato com os pais para acompanhar a evolução de João.

“O João não precisou pagar pela cirurgia, e o hospital continuou entrando em contato comigo para saber como ele estava. Para mim e para o meu marido, isso marcou muito, porque sentimos que trataram nosso filho como ser humano”, conta.

Tecnologia amplia possibilidades na pediatria

Imagem: Arquivo pessoal / Talita Ribeiro

Além de representar um avanço para o atendimento pediátrico em Santa Catarina, a realização do procedimento amplia a utilização da cirurgia robótica em casos de maior complexidade no HNSC.

A operação contou com a participação da enfermeira Regiane Batista, coordenadora do Programa de Cirurgia Robótica, além dos demais profissionais da equipe assistencial. A integração entre as áreas de nefrologia pediátrica, cirurgia pediátrica e cirurgia robótica foi necessária para a condução do caso.

Para a família, no entanto, o marco médico ganhou um significado ainda mais pessoal. João Lucas passou a ocupar um lugar inédito na história da medicina catarinense e, ao mesmo tempo, encerrou uma espera de dois anos por uma solução para um problema identificado antes mesmo de seu nascimento.

“Ele vai ser sempre lembrado pela nossa família como a primeira criança a passar por uma cirurgia robótica pediátrica em Santa Catarina. É um marco para todos nós e, principalmente, a oportunidade de ele seguir a vida com mais saúde e tranquilidade”, afirma Lucas.

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