Infraestrutura

Você sabia que o Marco Zero de altitude do Brasil está em Imbituba?

Estação escondida sob o Cais 1 do Porto de Imbituba é referência para as altitudes usadas em grande parte do território brasileiro.

Marco Zero de Imbituba (Datum Altimétrico) – Foto: Reprodução

Por Jhuli Spindola

Quando alguém diz que uma cidade está a 50, 100 ou 500 metros acima do nível do mar, existe uma pergunta por trás dessa informação: acima de qual nível?

No Brasil, uma das principais respostas está em Imbituba, no Sul de Santa Catarina.

É sob o Cais 1 do Porto de Imbituba que funciona uma estação maregráfica responsável por registrar as variações do nível do mar e que está diretamente ligada à referência utilizada para determinar as altitudes em praticamente todo o território nacional.

Em outras palavras, o município catarinense abriga um dos pontos que ajudam a definir o chamado “nível zero” usado como referência para as altitudes brasileiras.

A estrutura integra o Sistema Geodésico Brasileiro e é operada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a SCPAR Porto de Imbituba. Apesar de estar em uma área portuária movimentada, a estação fica longe dos olhos de quem circula pelo local.

O funcionamento está ligado a uma história que começou há décadas. Em 1948, um marégrafo foi instalado no Porto de Imbituba pelo Inter American Geodetic Survey (IAGS), serviço geodésico internacional responsável, à época, por atividades de mapeamento.

A partir das medições realizadas na região, o IBGE estabeleceu, em 1959, o Datum de Imbituba. O sistema utilizou como referência a média dos níveis do mar registrados entre 1949 e 1957, relacionada ao marco geodésico 4X, instalado no município em 1946.

Esse ponto permanece na área do Porto até hoje.

O princípio pode parecer distante da vida cotidiana, mas está presente em diversas atividades. A referência é utilizada, por exemplo, na elaboração de mapas, em obras e em projetos de engenharia que precisam considerar a altitude de determinado local.

É por isso que, quando se informa que uma determinada região está tantos metros acima do nível do mar, a medição precisa partir de uma referência comum.

Um equipamento que acompanha o mar de perto

Estrutura do marégrafo analógico – Fonte: IBGE

A estação de Imbituba reúne dois sistemas de medição. Um deles é o marégrafo analógico, que mantém uma longa série histórica de registros. O outro é o equipamento digital, responsável por registrar automaticamente as oscilações da maré.

Os dados digitais são enviados ao IBGE a cada cinco minutos e também alimentam sistemas internacionais de acompanhamento do nível do mar.

Essa observação contínua permite acompanhar as mudanças no comportamento das águas e entender fenômenos que podem ser percebidos na própria costa.

Um exemplo ocorreu em fevereiro de 2026, quando moradores e turistas registraram um recuo incomum do mar na Praia da Vila. A maré baixa deixou exposta uma faixa de areia que possibilitou, temporariamente, a travessia a pé até a Ilha de Santana de Dentro.

O episódio coincidiu com uma maré de sizígia, durante a Lua Nova, e também esteve relacionado à dinâmica dos bancos de areia. Com condições de mar mais calmas, a areia pode se acumular em determinadas áreas e alterar temporariamente o desenho da praia.

Em determinados momentos daquele episódio, a maré chegou a ficar 25 centímetros abaixo do nível zero.

Isso não significa, porém, que o mar tenha simplesmente “sumido”. O nível da água varia naturalmente de acordo com a maré, as condições meteorológicas, as ondas e outros fatores oceanográficos. O que a estação faz é justamente registrar essas variações.

Por que Imbituba virou referência?

Foto: Reprodução

A escolha do município está relacionada à série histórica de medições realizada no Porto. A partir desses registros, foi possível estabelecer uma referência vertical para a rede altimétrica brasileira.

O Datum de Imbituba atualmente serve de referência para grande parte do país. A exceção é o Amapá, que possui o Datum de Santana, estabelecido posteriormente devido às dificuldades encontradas para conectar a rede daquele estado à referência de Imbituba.

Além da importância para mapas e projetos de engenharia, a estação também recebe estudantes e pesquisadores interessados em conhecer o funcionamento dos equipamentos e entender como as medições do nível do mar são transformadas em referências utilizadas em diferentes áreas.

O Porto de Imbituba também conta com outros equipamentos de monitoramento, incluindo marégrafos e uma estação meteorológica da Epagri.

Assim, por trás da movimentação de navios e cargas no porto, existe uma estrutura que passa praticamente despercebida, mas que tem uma função que vai muito além dos limites de Imbituba.

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